Em meio às transformações recentes do sistema financeiro brasileiro, Felipe Rassi, especialista no mercado financeiro, elucida um paradoxo que poucos agentes conseguem enxergar com clareza: os períodos de inadimplência elevada, longe de representarem apenas destruição de valor, carregam em si uma lógica própria de geração de oportunidades para investidores preparados. O primeiro semestre de 2026 oferece um exemplo concreto dessa dinâmica, com o volume de carteiras de crédito deteriorado à venda atingindo níveis historicamente expressivos no mercado brasileiro.
Dados do Banco Central divulgados em maio de 2026 indicam que a inadimplência no crédito livre para pessoas jurídicas superou 4,8%, o maior índice desde 2017. Paralelamente, o mercado secundário de NPLs registrou um crescimento de 23% no volume de transações em relação ao primeiro semestre de 2025. Esses números apontam para um mercado em ebulição, em que a capacidade de identificar ativos subprecificados e estruturar operações de recuperação eficientes define quem captura valor e quem apenas observa o movimento de longe. Neste artigo, vamos explorar como esse cenário se traduz em estratégias concretas de investimento e gestão.
O deságio como ponto de partida, não como destino
Felipe Rassi esclarece que uma das leituras mais equivocadas sobre o mercado de distressed assets é a de que o ganho reside exclusivamente no desconto aplicado à aquisição da carteira. O deságio é, de fato, o ponto de entrada da operação, mas não é o que determina o resultado final. O que transforma uma compra de NPL em uma operação bem-sucedida é a capacidade de recuperação efetiva do ativo após a aquisição.
Carteiras adquiridas com deságio elevado e sem uma estratégia clara de recuperação tendem a produzir resultados muito inferiores ao esperado. O custo operacional de cobrança, os honorários jurídicos, o tempo de tramitação dos processos e a eventual necessidade de renegociação com os devedores corroem o retorno projetado quando não são devidamente mapeados antes da aquisição. Por isso, a due diligence financeira precede qualquer decisão de compra de carteira.
Por que a inadimplência corporativa abre janelas específicas?
A inadimplência de pessoas jurídicas apresenta características distintas da inadimplência de pessoas físicas que tornam o mercado corporativo particularmente atrativo para investidores especializados. Em primeiro lugar, os valores unitários são significativamente maiores, o que justifica o investimento em estruturas de recuperação mais sofisticadas. Em segundo lugar, as garantias associadas ao crédito corporativo, como imóveis, equipamentos, recebíveis e participações societárias, tendem a ter valor de mercado mais previsível e executável.

Conforme expõe Felipe Rassi, o ciclo de inadimplência corporativa que o Brasil atravessa em 2026 tem características estruturais que o diferenciam dos ciclos anteriores. A combinação de juros altos por período prolongado, reajuste de custos operacionais acima da inflação e retração do consumo em setores específicos criou um perfil de devedor corporativo que, em muitos casos, possui ativos de qualidade, mas enfrenta um problema pontual de fluxo de caixa. Esse perfil é exatamente o mais favorável para operações de reestruturação financeira bem conduzidas.
Estruturas de investimento disponíveis para acessar esse mercado
O acesso ao mercado de ativos estressados no Brasil ocorre por meio de diferentes estruturas, cada uma com características regulatórias, tributárias e operacionais próprias. Os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios, os FIDCs, representam o veículo mais consolidado para a aquisição e gestão de carteiras de NPL. Em 2025, o patrimônio líquido total dos FIDCs brasileiros superou R$ 600 bilhões, com parcela crescente alocada em carteiras classificadas como créditos estressados.
Além dos FIDCs, os fundos de private equity especializados em situações especiais, os chamados special situations funds, têm ganhado espaço no mercado brasileiro. Esses veículos permitem estratégias mais ativas de reestruturação, incluindo a conversão de dívida em participação societária e o acompanhamento da gestão operacional das empresas devedoras até a recuperação do valor investido.
Na interpretação de Felipe Rassi, a escolha do veículo adequado depende do perfil do ativo, do horizonte de investimento e da capacidade operacional do gestor. Não existe uma estrutura universalmente superior: existe a estrutura mais adequada para cada conjunto de variáveis presentes na operação.
Governança e critérios de seleção como fatores de diferenciação
Felipe Rassi frisa que, em um mercado com volume crescente de carteiras à venda, a capacidade de selecionar bem os ativos a adquirir tornou-se um diferencial competitivo tão relevante quanto a capacidade de recuperá-los. Gestoras que desenvolvem critérios rigorosos de seleção, baseados em análise setorial, qualidade das garantias, histórico do devedor e viabilidade jurídica da recuperação, tendem a construir portfólios com desempenho mais consistente ao longo do tempo.
A governança interna dos processos de aquisição e monitoramento é outro fator que separa as operações mais maduras das mais improvisadas. Comitês de crédito com participação multidisciplinar, relatórios periódicos de acompanhamento de recuperação e critérios claros de desinvestimento são práticas que elevam a qualidade da gestão e reduzem a exposição a perdas não antecipadas.
Como reforça Felipe Rassi, o mercado de oportunidades em cenários de inadimplência recompensa, acima de tudo, a disciplina técnica. A euforia gerada pela percepção de que há muito ativo disponível a preços atraentes pode levar gestores menos experientes a acelerar aquisições sem o rigor necessário, comprometendo o resultado de operações que, bem estruturadas, teriam potencial real de retorno expressivo. A inadimplência cria o cenário. A competência técnica é o que determina quem, de fato, se beneficia dele.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
