Baixo Sul da Bahia: A força da roça diversificada

Renji Morikawa
Renji Morikawa
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Alfredo Moreira Filho

No litoral baiano, entre Valença e Maraú, uma região inteira construiu sua economia sobre lavouras que convivem com a Mata Atlântica. Na leitura de Alfredo Moreira Filho, empresário cuja trajetória começou na roça em Igrapiúna, o Baixo Sul da Bahia mostra como a diversidade de culturas pode sustentar famílias por gerações, mesmo longe dos grandes polos do agronegócio.

O território reúne municípios como Cairu, Camamu, Igrapiúna, Ituberá, Maraú e Nilo Peçanha, e ficou conhecido no turismo como Costa do Dendê. Ao contrário das áreas de monocultura, ali cacau, seringueira, dendê, guaraná, cravo e piaçava dividem o mesmo espaço, muitas vezes dentro da mesma propriedade. Entenda, a seguir, como esse modelo se formou e por que ele volta a chamar atenção.

Clima úmido e terra de muitas culturas

O primeiro fator que explica a vocação agrícola da região é o clima. O Baixo Sul é úmido, com chuvas bem distribuídas e mais de 150 milímetros em todos os meses do ano, sem período de falta d’água. Essa condição favorece culturas perenes e permite que diferentes plantas cresçam juntas. Não por acaso, a região concentra parte relevante da área de seringueira e da produção de dendê do estado, enquanto o cacau ocupa cerca de 40% da área plantada.

Igrapiúna ilustra bem esse perfil; o município tem pouco mais de 13 mil habitantes em 591 quilômetros quadrados, e cacau e seringueira respondem, juntos, por 87% do valor de sua produção agrícola. Alfredo Moreira observa que, nesse cenário, a roça nunca foi apenas uma atividade econômica, mas o centro da vida familiar e comunitária.

Cacau à sombra da floresta

Boa parte do cacau baiano é cultivada em cabruca, técnica secular em que os cacaueiros crescem sob a sombra de árvores nativas da Mata Atlântica, preservando parte da floresta original. A lógica é agronômica: o cacau se desenvolve bem à meia-luz, e a cobertura das árvores maiores protege o solo e mantém a umidade.

Alfredo Moreira Filho
Alfredo Moreira Filho

Ao lado da cabruca, o Baixo Sul desenvolveu consórcios próprios, combinando cacau com seringueira, cravo, pimenta-do-reino e cupuaçu. Famílias de imigrantes japonesas que chegaram à região depois da Segunda Guerra Mundial ajudaram a difundir esses cultivos combinados. Igrapiúna também abriga a reserva particular Ouro Verde, mantida pela Michelin, e integra a Área de Proteção Ambiental do Pratigi, o que mostra que produção e conservação podem ocupar o mesmo território. Essa convivência, na avaliação de Alfredo Moreira Filho, explica boa parte da identidade da região.

O que a crise do cacau ensinou?

Por mais de um século, o cacau foi o motor econômico do sul da Bahia, com cidades inteiras dependentes de uma única lavoura. Nas últimas décadas do século passado, porém, a chegada da vassoura-de-bruxa, doença causada por um fungo, somou-se à queda de preços e provocou uma das crises mais severas da história agrícola do estado. Fazendas foram abandonadas e milhares de trabalhadores perderam o emprego.

A recuperação veio aos poucos e por outros caminhos: clones resistentes à doença, cacau fino e orgânico, além do beneficiamento local para a produção de chocolate. A experiência deixou uma lição que vai além do campo, e Alfredo Moreira entende que ela vale para qualquer negócio: depender de um único produto torna a atividade vulnerável a choques que ninguém controla.

Diversificar para gerar renda e preservar

A diversificação, que no Baixo Sul nasceu da prática dos agricultores, hoje é respaldada por estudos. Uma análise econômica de um sistema agroflorestal implantado na região, combinando cacau com açaí, banana-da-terra, gliricídia e mandioca, estimou lucro de até R$ 87,3 mil por ano quando as culturas atingem o máximo potencial produtivo.

O modelo é especialmente relevante para a agricultura familiar, que precisa de renda distribuída ao longo do ano e de proteção contra a oscilação de preços de uma única cultura. Os desafios permanecem, como o acesso à assistência técnica e às estradas para escoar a produção. Ainda assim, para Alfredo Moreira Filho, a roça diversificada do Baixo Sul continua sendo uma referência de como produzir sem abrir mão da floresta que dá identidade à região.

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