A inteligência artificial já deixou de ser apenas uma promessa tecnológica e passou a integrar atividades da rotina jurídica. Doutor Gilmar Stelo, advogado e fundador do Stelo Advogados, acompanha essa transformação no Direito e os efeitos das novas ferramentas sobre a atuação profissional. A tecnologia não elimina a necessidade do advogado, mas modifica a forma como parte do trabalho é realizada, ampliando a importância da análise estratégica e da responsabilidade no uso dessas ferramentas.
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O que a inteligência artificial muda na rotina jurídica?
Uma das principais mudanças está na maneira de lidar com grandes volumes de informação. Ferramentas de inteligência artificial conseguem auxiliar na localização de documentos, identificação de padrões, organização de dados e comparação de conteúdos. Atividades que antes consumiam uma parcela significativa da jornada podem ganhar velocidade quando estruturadas adequadamente.
Como destaca o Doutor Gilmar Stelo, isso não significa, porém, que a tecnologia produza automaticamente uma análise jurídica confiável. Uma resposta pode parecer coerente e ainda assim conter erros, interpretar inadequadamente determinado contexto ou utilizar uma informação desatualizada. A verificação humana continua sendo necessária para avaliar se o resultado realmente se aplica ao caso.
Essa mudança desloca parte do esforço profissional. Em vez de concentrar tanto tempo em tarefas operacionais, o advogado pode dedicar mais atenção à interpretação, à estratégia e às consequências de cada decisão. O ganho, nesse caso, não está apenas na velocidade de execução, mas na possibilidade de utilizar o tempo economizado para analisar cenários, revisar informações e identificar questões que exigem julgamento profissional.

O advogado precisará dominar novas competências?
Segundo o Doutor Gilmar Stelo, a expansão da inteligência artificial aumenta a importância de competências que nem sempre ocupavam o centro da formação jurídica tradicional. Saber formular uma solicitação adequada, avaliar uma resposta produzida por uma ferramenta e identificar inconsistências passa a fazer parte da relação profissional com a tecnologia. Isso exige uma postura mais crítica diante dos resultados apresentados, especialmente quando a informação produzida será utilizada para fundamentar uma análise, documento ou decisão jurídica.
Também cresce a necessidade de compreender os limites dos sistemas utilizados. Uma ferramenta pode ajudar a encontrar informações ou estruturar um documento, mas não assume automaticamente a responsabilidade pela decisão tomada a partir daquele material. A conferência humana continua necessária para verificar contexto, precisão e adequação jurídica, sobretudo em situações nas quais um erro pode comprometer prazos, argumentos ou orientações destinadas ao cliente.
A inteligência artificial pode substituir parte do trabalho?
Algumas tarefas repetitivas tendem a ser mais suscetíveis à automação. Classificação de documentos, organização de informações, pesquisas iniciais e determinadas atividades de revisão podem ser realizadas com apoio tecnológico, desde que existam critérios adequados de controle. Esse uso pode reduzir o tempo empregado em procedimentos mecânicos e permitir que o trabalho seja organizado de maneira mais eficiente, sem retirar do profissional a responsabilidade pela conferência dos resultados.
Conforme informa o Doutor Gilmar Stelo, a substituição de tarefas, entretanto, não equivale à substituição do profissional. O Direito envolve interpretação, argumentação, negociação, avaliação de interesses e tomada de decisões diante de circunstâncias específicas. Esses elementos não podem ser reduzidos simplesmente à produção de uma resposta automática. Mesmo quando uma ferramenta apresenta uma resposta aparentemente adequada, é necessário compreender o problema concreto e avaliar se aquela informação realmente se aplica à situação analisada.
O cenário mais provável é de transformação da divisão do trabalho. O profissional que utiliza tecnologia de maneira responsável pode concentrar sua atuação nas atividades em que julgamento, experiência e compreensão do contexto têm maior peso. Isso também tende a modificar a forma de organização dos escritórios, com novas rotinas de revisão, controle de informações e definição de responsabilidades sobre o conteúdo produzido com auxílio tecnológico.