A volta do uso consciente de cor nos projetos

Renji Morikawa
Renji Morikawa
5 Min de leitura
Daugliesi Giacomasi Souza

Durante anos, os projetos residenciais giraram em torno de paletas neutras, entre cinza claro, branco gelo e tons terrosos discretos. A promessa era simplicidade visual e atemporalidade, mas o resultado, em muitos casos, foi ambientes esteticamente seguros e emocionalmente distantes. Aos poucos, a cor volta a ocupar espaço central nos projetos, não como reação impulsiva ao excesso de neutro, mas como escolha deliberada. A diferença entre essa nova fase e o colorido aleatório de outras décadas está no critério: a cor deixou de ser acessório de última hora e passou a cumprir função dentro do ambiente.

Esse movimento aparece com força em projetos residenciais recentes de pequeno e médio porte. Daugliesi Giacomasi Souza, fundadora da DGdecor, destaca que a cor volta a ser tratada como elemento de projeto, e não apenas como acabamento final escolhido por último. Uma parede pintada de verde-musgo ou azul profundo, quando pensada desde o início, direciona a disposição dos móveis e a distribuição da luz de um cômodo inteiro.

A virada visual que devolveu a cor aos projetos

Ambientes inteiramente neutros dominaram vitrines de decoração por um período longo o suficiente para se tornarem sinônimo de bom gosto. Cinza, branco e bege ocupavam paredes, móveis e até objetos de decoração, criando uma sensação de segurança visual que raramente errava, mas também raramente marcava algo.

Essa uniformidade começou a esbarrar em seu próprio limite. Fotografias de ambientes praticamente indistinguíveis entre si passaram a repetir a mesma fórmula em endereços diferentes, e parte do público interessado em reforma passou a associar tanta neutralidade a falta de identidade, não a sofisticação. Ao comentar essa fase, Daugliesi Giacomasi Souza mostra que o esgotamento visual do neutro puro abriu espaço para clientes pedirem, eles mesmos, um ponto de cor no projeto.

De onde vem a preferência recente pelos tons neutros?

A onda de neutros frios que dominou a década anterior nasceu, em boa parte, do desejo de criar ambientes que envelhecessem bem e vendessem com facilidade, já que paredes claras agradam a um público mais amplo. Some-se a isso um contexto de excesso de estímulo visual no dia a dia, o que tornou o silêncio cromático um alívio momentâneo dentro de casa.

Daugliesi Giacomasi Souza
Daugliesi Giacomasi Souza

O problema é que silêncio prolongado demais começa a soar vazio. Ambientes sem nenhum ponto de cor tendem a depender inteiramente de textura e iluminação para gerar interesse visual, e nem todo projeto tem recurso ou metragem para sustentar esse tipo de sofisticação apenas com material.

Como a cor passa a ser usada com critério, e não por acaso?

A volta da cor não significa abandonar a base neutra, e sim usá-la como estrutura para receber tons mais intensos em pontos estratégicos. Uma proporção comum entre profissionais reserva a maior parte da superfície para tons neutros aquecidos, deixando cores mais fortes concentradas em uma parede, um estofado ou uma marcenaria específica. Nesse critério, explica Daugliesi Giacomasi Souza, a proporção entre base e destaque evita que o ambiente pareça improvisado ou datado em poucos anos.

Cada cor também carrega associação psicológica que interfere no uso do cômodo. Verdes e azuis profundos tendem a compor ambientes de descanso, enquanto tons terrosos e caramelo aparecem com frequência em áreas sociais, por reforçarem a sensação de acolhimento sem competir com a conversa ou a luz natural do espaço.

O que muda quando a cor tem função, não só estética?

O erro mais comum não é usar cor, e sim usá-la sem relação com a função do cômodo. Uma cozinha voltada para uso intenso pede tons diferentes de um quarto pensado para desacelerar o corpo ao final do dia, e ignorar essa diferença costuma ser o motivo pelo qual uma escolha de cor envelhece mal.

Nesse sentido, Daugliesi Giacomasi Souza indica que o real amadurecimento do mercado não está no retorno da cor em si, mas na forma como ela passou a ser justificada dentro do projeto. Quando a cor deixa de ser reação estética e vira decisão funcional, o ambiente para de seguir tendência e começa a responder à rotina de quem vive nele.

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