Para muitas empresas brasileiras, o primeiro instinto diante de juros altos é pedir menos crédito. Pedro Daniel Magalhães, executivo com atuação no mercado financeiro, crédito estruturado e gestão corporativa, observa que essa reação costuma ser o oposto do que a situação exige. Reduzir a exposição parece prudente, mas deixa intacto o que gerou o aperto: prazo curto, custo desalinhado com o caixa e falta de planejamento sobre quando pagar.
Essa confusão entre menos crédito e crédito melhor tem raiz simples. Quando o dinheiro fica mais caro, a reação natural de quem administra o caixa é frear qualquer nova captação, como se o crédito fosse o vilão. O resultado é uma empresa que segue endividada, só que sem os instrumentos que tornariam essa dívida sustentável.
Por que reduzir crédito não resolve dívida cara?
Quando a taxa básica sobe e fica assim por muito tempo, o capital de giro encarece e as margens de empresas mais dependentes de consumo sentem o aperto primeiro. Cortar crédito reduz o volume da dívida, mas não o custo dela. Uma linha de curto prazo renovada seguidamente carrega o mesmo problema, mesmo que o valor total caia, porque o prazo continua incompatível com o ciclo de receita.
Sem uma linha que respeite o tempo que a empresa leva para converter vendas em dinheiro, cada renovação vira uma negociação sob pressão, quase sempre em condições piores que a anterior. A empresa não está sem crédito. Está presa a um crédito mal desenhado para a sua realidade.
O problema real: custo, prazo e falta de planejamento
Especialistas em crédito corporativo resumem a questão em três eixos que raramente aparecem juntos: o custo da dívida, o prazo para pagá-la e o planejamento que conecta os dois à operação. Quando só o custo entra na conta, a empresa troca uma dívida cara por outra apenas um pouco mais barata, sem resolver o descompasso de prazo que originou o aperto.

Conforme aponta Pedro Daniel Magalhães, esse descompasso é comum em empresas com linhas de capital de giro para despesas recorrentes, mas com vencimento incompatível com o recebimento das vendas. Paga-se juros altos não por falta de opção, e sim porque a dívida nunca foi reorganizada em torno do fluxo de caixa real.
Como o crédito estruturado corrige esse descompasso?
Uma alternativa que ganha espaço entre empresas de médio porte é migrar parte da dívida para estruturas vinculadas a recebíveis, como fundos que compram os direitos creditórios da operação. Esse tipo de estrutura tende a ser mais previsível que uma linha bancária tradicional, porque custo e prazo já nascem atrelados ao ritmo em que a empresa efetivamente recebe.
Essa modelagem reduz a dependência de renegociações frequentes com bancos, que costumam ficar mais seletivos justamente quando os juros sobem. Ao alongar prazos e vincular o pagamento aos recebíveis, a empresa ganha previsibilidade sem reduzir o crédito que sustenta a operação, bem diferente de simplesmente tomar menos dinheiro emprestado.
Sinais de que a estrutura pede ajuste, não corte
Alguns sinais indicam estrutura mal ajustada, não falta de crédito: renovações constantes da mesma linha curta, dívidas pós-fixadas que sobem com a taxa básica e um caixa que só respira no dia de uma venda grande. Reduzir a captação, nesses casos, apenas adia o vencimento seguinte.
Empresas com maior organização financeira conseguem o oposto, como considera Pedro Daniel Magalhães, dado que acessam crédito em condições mais competitivas, mesmo com juros elevados, porque chegam à negociação com clareza sobre custo, prazo e capacidade de pagamento.
O que muda quando a dívida vira decisão de gestão?
Repensar a estrutura da dívida, em vez de apenas reduzir seu volume, transforma um problema de caixa em uma decisão de gestão. Empresas que fazem essa virada param de tratar o crédito como último recurso e passam a usá-lo como ferramenta, escolhendo prazos e garantias que conversam com a operação real do negócio.
O cenário de juros elevados funciona como um teste de maturidade financeira: revela quais empresas planejaram a própria estrutura de capital e quais só foram empurrando dívida para frente. É essa organização, e não a ausência de dívida, que separa, na avaliação de Pedro Magalhães, quem atravessa o ciclo sem sufoco de quem só adia o problema.