Prazo médio de recebimento de quase noventa dias entre hospitais e operadoras de planos de saúde impulsiona a estruturação de FIDCs voltados especificamente ao setor
O descompasso entre a prestação de um serviço de saúde e o efetivo recebimento dos valores junto às operadoras de planos de saúde se consolidou como um dos principais desafios financeiros de hospitais, clínicas e laboratórios brasileiros. Dados do setor apontam que os hospitais levam, em média, quase noventa dias para receber por serviços já prestados, prazo que tende a se ampliar ano após ano e que gera uma conta acumulada de valores a receber de proporção bilionária para o setor como um todo. Diante desse cenário, gestoras especializadas têm estruturado Fundos de Investimento em Direitos Creditórios dedicados exclusivamente à antecipação de recebíveis do setor de saúde, com iniciativas recentes somando centenas de milhões de reais em capital destinado especificamente a essa finalidade, tema acompanhado de perto pela ID CTVM em sua atuação como administradora fiduciária desse tipo de estrutura.
Cadeia da saúde envolve múltiplos elos com prazos distintos
Hospitais, clínicas, laboratórios, distribuidoras de materiais médicos e indústria farmacêutica compõem uma cadeia longa, na qual cada elo enfrenta prazos de recebimento distintos junto aos elos seguintes, com operadoras de planos de saúde frequentemente concentrando o maior poder de negociação sobre prazos de pagamento. Fundos especializados em recebíveis de saúde precisam mapear com precisão essa cadeia, identificando em qual ponto específico a antecipação gera mais valor, seja para o hospital que aguarda o pagamento da operadora, seja para a distribuidora que aguarda o pagamento do hospital por materiais e exames já fornecidos.
Segundo Rodrigo Balassiano, diretor da ID CTVM, o financiamento estruturado da cadeia de saúde exige conhecimento técnico específico sobre a dinâmica de glosas e reajustes contratuais do setor.
“O recebível de saúde tem particularidades que não existem em outros setores, como o processo de glosa, quando a operadora contesta parte do valor cobrado. Um fundo que não entende essa dinâmica corre o risco de superestimar o valor efetivamente recebível de uma carteira”, pontua o executivo.
Antecipação alivia pressão de caixa sobre prestadores
Para hospitais, clínicas e laboratórios, o acesso a capital via antecipação de recebíveis reduz a pressão sobre o caixa operacional, permitindo manter o funcionamento pleno da instituição mesmo diante de prazos de recebimento estendidos, além de viabilizar investimentos em equipamentos, ampliação de capacidade de atendimento e modernização de infraestrutura sem depender exclusivamente de linhas de crédito bancário tradicionais, historicamente mais restritivas para prestadores de serviços de saúde de médio porte.
A ID CTVM é habilitada pela CVM e pela ANBIMA para exercer administração fiduciária, custódia qualificada e controladoria de fundos estruturados, funções que incluem o acompanhamento de carteiras especializadas em recebíveis do setor de saúde. A companhia soma mais de R$53,48 bilhões em ativos sob administração e custódia, parcela distribuída entre diferentes segmentos da economia real, incluindo estruturas voltadas à cadeia de prestadores de serviços de saúde.
Especialização setorial deve continuar avançando
Para Balassiano, a tendência é que gestoras cada vez mais especializadas em saúde estruturam novos fundos dedicados a nichos específicos da cadeia.
“Já vemos fundos focados especificamente em materiais médicos, outros em recebíveis hospitalares, outros ainda em distribuidoras farmacêuticas. Essa especialização tende a se aprofundar, porque cada elo da cadeia tem uma dinâmica de risco própria”, complementa o diretor da ID CTVM.
Diligência sobre credenciamento reduz risco de carteira
A avaliação de uma carteira de recebíveis de saúde passa também pela verificação do credenciamento do prestador junto às principais operadoras da região, informação que ajuda a estimar a regularidade do fluxo de recebimentos futuros e a identificar eventuais riscos de descredenciamento que possam comprometer a geração de novos recebíveis elegíveis ao fundo. Administradores fiduciários e consultores especializados têm incorporado esse tipo de diligência qualitativa aos processos tradicionais de análise quantitativa de inadimplência, ampliando a robustez da avaliação de risco de carteiras concentradas em poucos prestadores de determinada região geográfica.
Demanda deve seguir aquecida no setor
A expectativa entre especialistas é que a demanda por antecipação de recebíveis no setor de saúde continue aquecida nos próximos anos, à medida que prazos de pagamento de operadoras seguem pressionados e prestadores buscam alternativas ao crédito bancário tradicional. Para administradores fiduciários, a capacidade de acompanhar as particularidades regulatórias e operacionais de cada elo da cadeia de saúde deve seguir como um diferencial relevante na estruturação desse tipo de fundo.